Artigo

KYs: Os desafios de criar e manter um programa Eficiente

06/03/2026

No último webinar de 2025, o IPLD reuniu especialistas de destaque para discutir a espinha dorsal de qualquer programa de Prevenção à Lavagem de Dinheiro e Financiamento do Terrorismo (PLD-FTP) efetivo: os Programas “Conheça”.  

O encontro, mediado por Núria Silva, Coordenadora de PLD-FTP da AML Outsourcing, contou com a participação de Silvia Rodrigues, Chief Compliance Officer para a América Latina na Ant International Group, e André Eduardo Demarco, Diretor de Autorregulação e Supervisão de Mercados na BSM. 


O debate focou na superação do descompasso entre a teoria regulatória e a prática cotidiana, explorando como as instituições podem aprimorar sua governança em um cenário de transformação tecnológica acelerada. 

gap entre regulação e prática: o desafio humano e tecnológico 

 

A discussão revelou que o principal desafio do setor não é apenas tecnológico, mas também humano. André Demarco enfatizou que a tecnologia deve estar a serviço de profissionais qualificados, destacando que a retenção de talentos e o alinhamento ético da alta administração são fundamentais para a perenidade do negócio. Para Demarco, o grande desafio é conectar a visão do business e da regulação com a alta administração. Só falar não convence mais ninguém; é preciso o walk the talk, para garantir que o Programa de Integridade seja autêntico e não apenas uma “moldura” para cumprir exigências.  

Silvia Rodrigues complementou que o gap muitas vezes surge da dificuldade em equilibrar a experiência do cliente (UX) com a segurança regulatória. No Brasil, a segurança é parte integrante da experiência do bom cliente, que valoriza ser atendido por uma instituição rigorosa e transparente. 

A estrutura dos 4Ks: o coração da PLD-FTP 

 

Os Programas “Conheça” são a base para identificar, avaliar e mitigar riscos. Eles se dividem em quatro frentes essenciais: 

  1. KYC (Customer): Foco no monitoramento do ciclo de vida e não apenas no onboarding
  2. KYE (Employee): Mitigação de riscos internos e proximidade com colaboradores em posições sensíveis. 
  3. KYP (Partner): Avaliação de riscos em parceiros de negócio. 
  4. KYS (Supplier): Diligência sobre a cadeia de fornecedores. 

Aprendizados técnicos em destaque 

Os debates técnicos ao longo do encontro evidenciaram um ponto comum: a maturidade dos Programas de PLD-FTP passa, cada vez mais, menos pela existência formal de políticas e mais pela capacidade das instituições de operá-las de forma contínua, proporcional ao risco e alinhada às exigências regulatórias.  

Nesse contexto, os aprendizados compartilhados reforçam desafios práticos enfrentados no dia a dia das áreas de Compliance, especialmente diante de um mercado diverso, dinâmico e em constante transformação.  

  1. KYC: O Desafio do Monitoramento Contínuo 

O mercado é heterogêneo, mas a regulação é a mesma para todos (de grandes bancos a iniciadores de pagamento). André Demarco destacou que a maior dificuldade atual não está no onboarding, mas na gestão do ciclo de vida do relacionamento.  

  • Abordagem Baseada em Risco (ABR): Deve orientar diligências proporcionais e coerentes com a realidade operacional; 
  • Etapas fundamentais: Coleta, verificação e validação são processos distintos que exigem ferramentas e olhares específicos; 
  • O limite do mínimo regulatório: Silvia Rodrigues observou que o mínimo exigido pela regulação atual já é bastante rigoroso, deixando pouco espaço para flexibilizações no KYC inicial, mas permitindo o uso da ABR na atualização cadastral. 

 O monitoramento contínuo é essencial, pois o perfil transacional do cliente muda constantemente.  

  1. Inteligência Artificial e o limite da diligência 

Um dos aspectos mais relevantes do evento foi o papel da Inteligência Artificial (IA). Embora indispensável para ganho de escala, ela não substitui o julgamento humano em casos de alto risco.  

Silvia destacou que o limite da diligência institucional termina onde começa a investigação criminal. Quando o risco se torna excessivo a ponto de gerar insegurança ou demandar táticas estritamente investigativas, a instituição deve reavaliar seu apetite de risco e a continuidade do relacionamento. 

  1. KYE: Integridade de dentro para fora 

Know Your Employee (KYE) foi apresentado como um pilar de Integridade interna. Para os painelistas, conhecer o colaborador vai além de checar o currículo; trata-se de proximidade e conscientização. 

  • Apetite de risco claro: A alta administração deve definir e comunicar de forma objetiva o apetite de risco da empresa por meio de documentos de atestação. 
  • Reconhecimento e cultura: Valorizar a primeira linha de defesa quando ela identifica red flags é mais eficaz do que apenas monitorar sinais exteriores de riqueza. 
  • Missão social: O Compliance em PLD-FTP possui uma dimensão social que transcende a empresa, contribuindo para uma sociedade mais ética e segura. 

O evento encerrou com uma mensagem de cooperação: os riscos não estão apenas fora, mas também podem estar dentro das instituições. A continuidade da inovação financeira dependerá da capacidade de alinhar a eficiência dos negócios com a responsabilidade de conhecer profundamente quem está do outro lado da relação. 




VOLTAR PARA A LISTA DE ARTIGOS